Desmistificando o "Programa de índio"
Em Julho de 2015 descemos o Rio Amazonas de barco, numa viagem de Manaus a Santarém, apesar de todos os conselhos dos amigos para que desistíssemos e voássemos no primeiro avião...
Confesso que comecei a sentir um gostinho de medo do incerto quando não encontrei mais do que um par de relatos sobre esta travessia na internet.
Poderia ser tão desaconselhável assim?
Este foi o verdadeiro motivo de ter decidido fazer um blog e este será o meu primeiro post.

Última semana de férias de julho e como sempre, nos propomos a fazer uma viagem ecológica com as crianças. Nosso destino era Alter do Chão, mas neste post, o grande destaque é o percurso até lá!
Decidimos, ao invés de ir direto p Santarém de avião, ir até Manaus e descer o rio Amazonas de barco até Santarém. Dois dias de viagem... Sonho antigo de Marcelo....
Mas, diferentemente do que eu tinha imaginado, nenhuma agência de turismo, nem mesmo o Google (!), consegue um barco com o mínimo de conforto.... ou seja: tem q ser barco de linha mesmo!!!!!
Com os comentários que eu li no trip advisor, só posso concluir que com esta viagem ganharemos com louvor a carteirinha da FUNAI!!!!! Imaginem o programa de índio q vamos nos meter?????
Vou detalhar aqui alguns aspectos que considero importante para esclarecer nossas dúvidas e, quem sabe, descobrir uma viagem muito instrutiva e interessante!

As passagens: tentei comprar desde Recife, mas sem sucesso. Inclusive, o máximo que consegui descobri com as agencias de turismo foi o telefone do porto de Manaus, mas que não me serviu de nada pois ninguém atendeu.... O google pela primeira vez me deixou na mão. Existe pouquíssima publicação sobre isto. Tem a opção de alguns barcos de luxo, mas eles só navegam próximo a Manaus. Até tem fotos de algumas embarcações maiores, mas não consegui contactar com nenhuma delas. Marcelo descobriu um amigo que deu o telefone de alguém que trabalha no porto, mas o rapaz de lá falou que “era só chegar no dia da viagem e ver qual o barco vai partir. Se estiver lotado, espera para o dia seguinte.... “ Definitivamente esta idéia não me agradava. Temos hotel reservado em Santarem e em Alter do Chao. Não dá p ficar arriscando o dia do barco...

Então a nossa sorte foi um amigo que mora em Santarem e conseguiu comprar nossas passagens. Eu depositei na conta dele e ele comprou 1 cabine (para 2 pessoas) e 2 passagens individuais para ficar nas redes, seguindo nossa orientação e a contra gosto (pois queria 2 cabines e achou uma loucura nosso desejo de dormir na rede). Só precisávamos nos apresentar no porto, no dia combinado, as 11h. Quando nos aproximamos do porto vários homens cercavam e acompanhavam nosso taxi querendo vender passagem p este barco. Tive a curiosidade de perguntar os valores e eram os mesmos que pagamos antecipadamente (R120,00 por pessoa na rede), mas as cabines eram mais caras (compramos por 600,00 para 2 pessoas e no dia era 700,00).
Agora já posso dar uma ajudinha para quem quer comprar e não ficar rodando como eu fiquei:
Antes de embarcar, às 11h, entramos e atravessamos todo o mercado central (fica exatamente na frente do Porto). Se controle para não comprar sua rede lá, apesar da grande oferta, a qualidade não é boa. Andando mais um pouco, na rua atrás do mercado, há várias lojas especializadas em redes, de qualidade superior. Compramos as nossas lá e não se esqueça de também comprar a corda para pendurar a rede.


A dormida: as redes são realmente colocadas muito próximas umas das outras, de forma que é normal imaginar as “bundadas” e “pernadas” que damos e levamos, ao longo da noite.

A dica é fazer amizade com seus vizinhos de rede logo que chegar no barco e depois voce não vai ficar com raiva durante a noite... Às vezes o sono e o cansaço vencem e nestas horas até conseguimos dormir e sonhar! Mas não é exagero concluir que pelo menos 1/3 da noite passamos mudando de posição e tentando aliviar a coluna. Nada que nos faça perder o bom humor e achar que a experiência não vale a pena!

Os mosquitos: durante mais de 24 h não experimentamos uma sensação de picada de mosquito, nem sequer de seu típico som.... Isto porquê o barco se move o tempo todo e o vento simplesmente não permite que ele se aproxime. Ou seja, nossos 4 frascos de repelentes voltaram lacrados...

As paradas: durante o trajeto Manaus - Santarém, o barco parou 4 vezes (Itaquatiara, Juruti, Óbidos e Parintins). Nunca por mais de 15 a 20 minutos, tempo suficiente para embarque e desembarque dos passageiros e suas cargas.

Na parada de Parintins, as 4 da manha, os vendedores entram no barco, passeando entre as redes, para vender seus produtos, então, prepare-se para acordar ainda no escuro, ao som de : “2 bolinhos: 5 real” ou “tapioca, quem vai querer”, “queijo assado”, “pão caseiro a 2 real”, etc

Somos acordados (se estamos dormindo), as 6h com um auto-falante repetindo 3 vezes que o café está servido no refeitório das 6 as 7h, e temos que comprar a ficha no valor de 5,00 reais.

Logo em seguida, a mesma voz agradece a Deus pela noite que tivemos e reza a oração de São Francisco. Lindo de se ver a fé das pessoas ao redor de minha rede. Claro que rezei também.
O café da manhã: uma fatia de melancia e/ou abacaxi, um pão com queijo e presunto, uma fatia de bolo simples, uma espécie de mingau salgado e um copo de café com leite quente ja adocicado. Simples, mas bom. Eu complementei com um leite, granola e pedacinhos de maça que trouxe de Manaus, além de um suco de uva que compramos na lanchonete do barco, no andar de cima. Tudo joia, mas precisava ser tão cedo?

A comida: Como o barco parte as 12h e tomamos um reforçado café da manha no hotel, não almoçamos e durante a tarde comemos uns salgadinhos e frutas que trouxemos. As 18h é servido a “janta” e como o aspecto não parecia muito gourmet, eu e Marcelo não comemos, acreditem, as crianças comeram e adoraram.
A fome pode contribuir um pouco, mas foi lindo ver os pequenos se deliciando como os locais.

Na terceira parada do barco, as 10h da manha, no povoado, merece destaque a venda de quentinhas. Como eles não podem entrar no barco (diferente dos vendedores da madrugada, talvez pela presença da policia civil que organiza a população local, que parece em festa), eles ficam do lado de fora, com uma vara enorme, cuja ponta tem um gancho para levar o saco da quentinha e uma metade de garrafa pet para recolher o dinheiro. E a vendedora grita estridentemente: “pirarucu, galinha caipira e assado de panela”. Quem quiser, basta depositar 8 reais na ponta da vara, dentro da garrafinha!

Som tecnobrega: as 2 caixas de som do tamanho de um homem tocam dia e noite, sem parar, no deck superior, junto a lanchonete, também aberta 24h. À noite, ainda montam um telão com os shows dos cantores. Mas graças ao revestimento acústico do piso (que eu custo a acreditar) e ao vento (explicação muito mais razoável), o som não chega nos decks inferiores, onde estão as redes. Ou seja, não atrapalha em nada!

A capacidade do barco é impressionante! Nem consegui imaginar 1327 pessoas ali... Mas afortunadamente, tínhamos menos de 1/3 da lotação!


As suítes: são muito melhores do que eu imaginei. Havíamos decidido, em pleno acordo antes da viagem, que eu e Mari dormiríamos na rede. Sonhávamos com esta experiência. Ja Marcelo e Nando, pouco mais sofisticados e comodistas, preferiram ficar num camarote . No final a decisão foi a mais acertada possível, pois o camarote tinha cama de casal + beliche, ar condicionado, banheiro privativo, frigobar e ainda um armador de rede!

A melhor coisa é que podíamos deixar todas as malas com segurança e usar nosso banheiro, sem abdicar da vivência na rede! Desta forma, à noite, deixamos os rapazes no quarto e seguimos, eu e Mari para nossa missão, mesmo sabendo que podíamos dormir, os 4, no camarote!

No andar de baixo os passageiros transportam todo tipo de mercadoria (objetos, comida, automóveis e animais). 
Uma das coisas mais interessantes desta viagem, como poderíamos imaginar, é que estamos 2 dias sem internet e sem muita opção de diversão para crianças dos dias de hoje... De cara descobrimos uma sala de cinema que nunca funcionou...

Mas o melhor foi que, apesar de ter levado os Ipads deles, acreditem, eles não abriram nem um minuto! Logo vi Nandinho fazendo amizades com os nativos, e passaram um tempão jogando UNO e outros jogos do tempo que nós éramos crianças!!!!

E para finalizar, levei na bagagem um espumante e umas taças de acrilico (com néon para compor o astral do barco!kkkkk) para um brinde ao por-d0-sol!

E concluímos que podemos transformar positiva ou negativamente o ambiente! Muito do que vivemos depende de nós!!!!!
